Para ouvir lendo (ou apenas ouvir): Lucky (parte 05)
A intensa vontade de não ser miserável: recortes de um caderno de memórias*
10 de abril
e, out of fucking nowhere, ela apareceu aqui. fiquei sem reação, sem saber como agir, fazendo qualquer coisa, só pra não ficar ali, paralisado, enfrentando toda aquela carga emotiva que eu filhadaputamente recusei e provavelmente não mereci. já estávamos bastante zonzos com o zunido atordoante de tantos e tantos não ditos que foram sendo acumulados, que nada foi para além de duas almas desconsoladamente perdidas, mudas e paralisadas; o pior ainda estava por vir: aquele-abraço. aquele-maldito-abraço-trêmulo. aquele-maldito-abraço-trêmulo-de-adeus. aquele-maldito-abraço-de-adeus-pra-sempre-de-frente-de-portão. a respiração dela, incessantes empurrões no meu peito, estava tão errada, tão ofegante, tão rasa, que eu só queria empurrar ela para longe e não sentir mais parte da sua dor, ignorar a minha. e foi o que fiz.
11 de abril
a lastimável cena de ontem, mudou alguma coisa aqui dentro. sei que depois daquela canalhice eu perdi ela pra sempre. sei também que eu ainda amo ela. ou, ao menos, comecei realmente a.
14 de abril
ela não atende.
18 de abril
ela nunca está em casa.
21 de abril
hoje recebi um email dizendo apenas: “acabou”. fui lá de novo, a vizinha com cara feia disse que ela voltou pra cidade dos pais dela.
22 de abril
agora me comportar como uma madre teresa de freakin’ calcutá que sabe ser saudável, que aceita distâncias e convive muito harmoniosamente com ausências; daquelas que sente a falta e, just in case, a revolve de todo um carinho e investimento sutil. em passos silenciosos e olhar atento, espera, e espera, e espera, porque, afinal de contas, entende, compreende e cultiva o tal do “viver é deixar viver”. transparece tranquilidade e serve de porto seguro para um outro e, sobretudo, para um nós, de modo que por mais que do lado de dentro tudo esteja despedaçando, traz no semblante uma expressão de paz/paisagem por sentir e acreditar na esperança do até breve, porque vai que, né?
23 de abril
aquilo que doía por si só, agora dói através dessa ausência. é como se em toda falta tivesse agora você.
25 de abril
no fundo, ou não tão no fundo assim, eu sou(era?) uma criança mimada e só.
02 de maio
eram planos tão bonitos.
10 de maio
abrir mão de tudo e se dissipar por entre a brisa.
fugaz.
25 de maio
assim como verdades absolutas são parciais e assim como o inverso também se faz verdadeiro, perder uma parte, mesmo uma daquelas que nunca soubéramos como nossa, é perder um todo, mas é também, e sobretudo, constituir uma nova totalidade. um novo inominado.
02 de junho
tentei amar alguém tão impregnado de defeitos para que assim o objeto de desejo parecesse o máximo, quanto possível, real. desatentei-me, porém, ao fato de que os defeitos tão estimados eram na verdade parte de um julgamento de caráter errôneo: ela não existia.
03 de setembro
“[...]mesmo que for, não vai por completo.”
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* Excerto do meu conto de mesmo nome publicado no livro “No arco-íris do esquecimento” (2012, Ed. Multifoco). Que pode ser adquirido em: Livro: http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=966&idProduto=995
João Henrique Balbinot, paranaense de interior, gosta de viver rodeado de músicas, palavras e pessoas. Quase sempre.
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