+ review: the king of limbs
Por: Cezar
Após o hiato do Hail to the Thief, Radiohead abandonou a Parlophone (EMI) e assinou com o selo TBD Records (que também assinou com Autolux, e Port O'brien e afins). O disco sucessor, In Rainbows, foi lançado com uma inovadora e bem sucedida manobra de marketing. Mas não parou por aí: House of Cards ganhou um video-clipe também inovador, sem o uso de câmeras ou luzes, All I Need serviu de trilha para uma campanha contra o tráfico humano, e 15 Steps fez parte da trilha sonora de Twilight - ninguém é perfeito. O In Rainbows, em sua estética, promete ser pop, sem abandonar a pretensão característica, mas deixando claro que a banda quer do Rock apenas o dinheiro que ela lucra em royalities com seus 3 primeiros discos.
Sem muito alarde e expectativas, a banda anunciou o lançamento de The King of Limbs apenas na Internet, e em dois veículos de mídia social: o seu blog oficial, e na sua conta do Twitter. Quando foi anunciado, o disco foi disponibilizado em um sistema de reservas, que prometia ou um Kit de luxo, ou o disco físico enviado para a casa do feliz comprador, além da possibilidade de download da mídia a partir da data de lançamento. Tudo restrito e pago, diferente do In Rainbows. A obra foi produzida por Nigel Godrich.
Quem está familiarizado com a aparência do som da banda, já está acostumado com baterias eletrônicas que soam desarmônicas, mas que ao longo da execução se encaixam perfeitamente com os outros elementos da música. Iniciando o album com um instrumento que tornou-se obcessão para Thom Yorke a partir do Amnesiac, o piano, acompanha-se logo mais de um loop de pequenos ruídos sintéticos, a medida que duas notas das teclas inicias se repete ao longo da música. Uma repetição de bateria também se inicia logo mais, junto com uma linha de baixo que também se repete. Uma guitarra base e discreta sem um pingo de distorção - é de se acostumar com isso até o final do disco - também figura em Bloom. No ultimo terço da música, as ambientações de J. Greenwood com o teclado, em mescla com a voz de Thom Yorke que floresce em reverb progressivo cantando "And while the ocean blooms, It’s what keeps me alive" e "I’m moving out of orbit, turning in sour salt", provável citação a ameaça da água no planeta.
"Good Morning, Mr Magpie, how are we today?" Com notável citação a lenda dos Magpies nas ruas britânicas, Morning Mr Magpie inicia-se com instrumentos reais e pouca presença de sintetizador (apenas uma nota em sampler que se repete em background durante grande parte da música). Percebe-se duas guitarras lançando notas mudas e uma base a direita, a linha de baixo que quase não varia. Na metade há uma pausa que dá espaço a uma pequena bateria eletronica com o baixo, e dá destaque a três ruídos parecidos com batidas em madeira, e um sintetizador que progrede. Daí, para o final, se tem espaço a algumas firulas de produção que sela uma conclusão para a música. Took this melody and good look.
Paixões sem compromisso para distração, e para sair da rotina figuram em Little By Little. Mas há o alerta: "Once you’ve been hurt, You’ve been around enough". Bateria e percursão contínua que se interrompe no refrão, em combinação com uma linha de baixo que se repete pela música dá impressão de que o ouvinte está participando de um ritual. A guitarra ganha um drive discreto, e inclui-se efeitos de produção com sons reversos, lembrando mais ainda uma atmosfera hipnótica.
Feral é a instrumental do disco. Uma bateria contínua, com poucas variações, e uma linha de baixo que acompanha Thom Yorke resmungando num vocoder que dá a devida ambientação a música. Sintetizadores também marcam presença para auxiliar na imagem psicodelica.
Não era de se duvidar que uma das músicas mais fáceis de digerir do disco fosse virar single. O vocalista da banda dança sozinho, no escuro, e prova do que a melodia prega: desinibições, transpor limites, fazer coisas impulsivas e inconsequentes e ouvir o seu coração "just to see what if, just to see what is". Essa parece ser a música mais "cantarolante" do disco, em que a letra acompanha-se de um baixo contínuo no início e que varia ao longo da música, e de uma bateria acústica. Diferente das outras, o sintetizador entra em destaque nessa música, fazendo guitarras irem para o segundo plano e servirem de retoques. "Slowly we unfold as lotus flowers" e provar que também conseguiremos dançar Lotus Flower. (Enquanto Thom Yorke vira meme)
Em ritmo slow down, Codex lembra bastante a trilha sonora de um sonho, uma miragem, um delírio. Em mescla com a letra, chega-se a pensar que a música trata do delírio do puro, da libertação total, do zen. A letra descreve um cenário com um lago limpo, libelulas, deixando claro que "no one gets hurt" ou "you've done nothing wrong". A música começa com um suspiro, interrompido com piano, como se tudo acontecesse em outra realidade. Há uma discreta bateria eletronica durante a música, com o choro vocal em segundo plano; e a adorável presença de metais e alguns sintetizadores, tudo tendendo a atmosfera psicodelica.
Enfim uma canção acústica com violão voz, somada com o majestoso talento radioheadiano de produzir arranjos maravilhosos. Give Up The Ghost foi executada antes de ter nome em um show, no ano passado, e contava com um sistema excêntrico de back voices: com dois microfones, um deles conectado a um equipamento de gravação que repetia os sons gravados em tempo real, em uma certa frequência, e outro com o vocal principal. Certamente, a apresentação da obra ao vivo surpreenderá mais do que a execução compilada, mesmo esta sendo impecável, com direito a cantos de passaros discretos. "Don't Haunt me, Don't Hurt me, In your arms" é uma ode a tentativa de superação de fantasmas das magoas e rancores.
Como de costume, o disco termina em grande estilo. Separator é uma música em que cada membro parece assumir o seu devido lugar. O baixo não soa massante e repetitivo como nas outras baixas, Phil S. bate num ritmo a lá hiphop do Dj Shadow, um sintetizador acompanha a música toda harmonica e progressivamente, e um solo de guitarra gracioso marca o final. "It's like I'm falling out of bed (…) When i ask you again wake me up" aponta o momento exato em que o sujeito é acordado de um sonho por alguém que talvez o título se refere, responsável por delimitar a amarga realidade dos delírios descritos.
Mas afinal, quem é o tal Rei dos membros? Como custo acreditar que uma banda tão renomada produz um disco com esse nome sem se preocupar com o significado do mesmo, formulei uma teoria.
Cada faixa trata de emoções, características de uma personalidade ou impulsos afins produzidos pelo cerebro, como o conformismo (em Bloom), supertições (Morning Mr Magpie), compromissos amorosos - e a falta de tal (Little By Little), a selvageria ou o instinto a flor da pele (Feral e seus resmungos), sonhos (Codex), fantasmas do passado (Give Up The Ghost) e o acordar para a realidade e seus sentidos (Separator). Concorda? Tem alguma teoria?
Via (verymuchalive)














