Radiohead para as massas

Por: LUCAS SANTTANA

NEWARK - Você não precisa ser um profundo estudioso dos Beatles para entender que sua obra alcançou tal excelência graças ao fato de a banda, em vários momentos de sua trajetória, ter optado pela música, e não pelo glamour ou pelo "sucesso".

Trilhando o mesmo caminho está uma das bandas mais influentes da virada do século XXI. Nascido em Oxford em 1986, o Radiohead tem oito álbuns, sendo que três deles ("OK Computer", "Kid A" e "In rainbows") tiveram importância histórica para muito além da música. Sobre isso você pode ler na Wikipedia, pois aqui só terei alguns mil caracteres para falar do show do último álbum, "The king of limbs", lançado em fevereiro de 2011, mas só promovido agora.

Por isso a expectativa no Prudential Center, em Newark, era grande. Assim que as luzes se apagaram, um mantra cantado por um coro foi a deixa para a banda entrar no palco com "Bloom", mais groovada e com riffs de guitarras ao estilo africano. Um sexto elemento, o baterista do Portishead, Clive Deamer, alternava uma segunda bateria e pads eletrônicos. Sua presença mudou os arranjos de algumas músicas, principalmente as mais dançantes, que ganharam pressão rítmica e suingue.

Teoricamente, no tradicional esquema 4-4-2, o Radiohead é uma banda de rock: duas guitarras, baixo, bateria e vocal. Mas na prática o esquema se aproxima mais do Barcelona atual. Isso porque em vários momentos do show os guitarristas Ed O’Brien e Jonny Greenwood deixam de lado os tradicionais riffs de guitarra, característicos do rock, para criar camadas e mais camadas de sons espaciais, de modo que, olhando para a mão no braço da guitarra, e ouvindo o que sai nas caixas de som, é impossível definir qual daqueles sons vem de seus instrumentos. Não posso deixar de elogiar o técnico de som, cujo nome peço desculpas por não saber. Assim como temos know-how de como jogar futebol, os ingleses têm de como fazer sons se propagarem no espaço. E isso não é de hoje, basta ouvir a mixagem de discos dos já citados Beatles ou Portishead para entender. O P.A. (caixas de som voltadas para a plateia) do Radiohead era algo artesanal. Em determinados momentos não se ouviam mais os instrumentos em separado, mas uma massa compacta, mutante e ao mesmo tempo impenetrável.

Outra coisa que chama a atenção é o cenário. Esqueça a pirotecnia dos megashows. Aqui, há apenas telas de led que se posicionam alternadamente sobre os músicos a cada canção e um painel de luz atrás do palco. Embaixo, centenas de cobogós e, em cima, uma cortina de microluzes. A cada música, combinações de luzes e imagens nas telas se alternam com no máximo duas cores, formando imagens que parecem um quadro, uma videoinstalação de artes plásticas, ou puro entretenimento visual para acentuar o clima das canções. As imagens da banda são feitas ao vivo, mas filmadas de um jeito que parecem pré-gravadas, criando uma relação singular de espaço-tempo. É conceitual e é para as massas. E não há conflito nisso.

Voltando ao guitarrista Jonny Greenwood, talvez o epicentro da banda, autor da excelente trilha sonora do filme "Sangue negro" ("There will be blood") e fã confesso do compositor contemporâneo Penderecki. Quer ouvir essa composição dele executada pela Orquestra Sinfônica da BBC em duas partes? (www. youtube.com/watch?v=StCnrz LmjU0). Quando ele largava sua guitarra e se dividia em vários sintetizadores, o som da banda ganhava novas camadas e migrava para outros universos musicais. Ora fazendo nos sentir numa rave, ora numa boate pequena ouvindo um set de música minimal, dubstep ou grime. Essas palavras fazem o som dos caras parecer megaestranho, né? Às vezes é mesmo. Mas é tudo orgânico e conduzido pela voz emocional e emocionante de Thom York (como canta esse rapaz!). Não só por ele, na verdade toda a banda toca com uma entrega religiosa. E a plateia adere ao "culto" rapidamente, são fãs e foram lá sabendo do que queriam comungar.

Apresentação sensorial

Mesmo nos momentos mais clichês de um show para as massas, como na batida acachapante do meio para o fim de "Idioteque", vem adicionada uma nova batida quebrada e sincopada, causando uma sensação estranha para quem queria dançar a batida do disco. Mas novamente todos aderem à bolha de som do Radiohead. O show é tão sensorial que até a luz acesa sobre a plateia, geralmente branca e chapada, quase cegando o público, no show do Radiohead é verde, tipo cromoterapia. Torço muito para que esse show venha ao Brasil, um país que tem acreditado que coisas sofisticadas não podem ser populares, quando historicamente a bossa nova, o tropicalismo e o mangue beat provaram o contrário. Sem nostalgia, a classe C a Deus pertence…

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