Radiohead Clássicos Escondidos: Dollars and Cents

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Dollars And Cents

Amnesiac (2001)

 

Vivemos profundamente os tempos da neuroeconomica – como dizia Robert Anton Winston– o sistema financeiro se expandiu como um veneno nas veias da humanidade e aos poucos foi tornando a nossa psicovisão íntima em uma sociedade de zumbis – talvez os Zumbis Cibernéticos de Hakim Bay – talvez meras “Crianças A” como temia Thom Yorke no disco gêmeo Kid A. A verdade é que mesmo com a crise mundial, algo que já possui raízes há tempos, é perturbadoramente irreparável em nossas química, a dependência extrema do dinheiro. As raízes dessa questão chegam ao tom esquizofrênico em uma das melhores e mais dopantes criação do Radiohead, Dollars And Cents – oitava faixa do delirante Amnesiac de 2001.

O processo de entorpecimento é mútuo e  lento, baixo e guitarra se transvestem em linhas imaginárias  delimitando o espaço líquido da canção, um sintetizador vaga pelo ambiente preenchendo os vácuos contínuos de uma bateria fantasmal, enquanto Thom Yorke parece declamar em terceira pessoa uma constatação cíclica de pesadelo e verborrágicas verdades poéticas, porém a canção espatifa-se no ciberespaço das nossas percepções envidraçando a razão, para tudo se acalmar solitariamente.

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Na segunda parte, Thom parece um poeta vagando entre suas próprias alienações devastadoras, segundas vozes brotam da intensas enraizações lisérgicas da melodia, Dollars And Cents está personificado, é a própria matéria que solfeja sedutoras visionarísmos pós modernos. Será que nossa dependência do dinheiro fez criar um novo Deus? será o sistema financeiro uma verdade máquina multidimensional de controle social?.

A última parte da canção releva-se trêmula e reveladora. A guitarra de Ed – em uma das melhores progressões da discografia- rasga as paredes da canção, Colin e Phil lembram a passagem do tempo em pseudoliberdade, com doses sutis de Jazz e Alice Coltrane, Thom – apenas uma voz nos porões da inconsciência – canta a verdade sobre o estado de automação que somos expostos, sobre a estrutura quase metafísica da desgraça social em sua outra face; com tons de uma ironia cinzenta, passivamente pessimista, sobretudo, alarmante, a esquizofrenia capitalista chegava no seu auge. Temos consciência disso mas ninguém conhece a saída de emergência que não leva ao precipício íntimo da alienação visceral?

DSC08679Com Amnesiac o Radiohead seguiram uma deslinear linha filosófica de discussões sobre a homem e a modernidade, iniciada ainda em Ok Computer (1997) e destrinchada em várias nuances com Kid A e Amnesiac e depois com Hail To Ther Thief, 2003 (que tem como inspiração o 11 de Setembro e 1984).

 

A alienação humana em suas múltiplas vias abriga em Dollars and Cents um dos seus pontos centrais na discografia. A canção por si só já seria um grande petardo. Sua base jazzy com sintetização, ácida abstração no ambiente e performática expressão de arranjo mostrava que os Radiohead estavam vivendo um assustador processo criativo. Um dos melhores e mais dopantes momentos dos anos 00.

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