Para ouvir lendo (ou apenas ouvir): Lucky (parte 02)
A intensa vontade de não ser miserável: recortes de um caderno de memórias*
25 de fevereiro
pode parecer estranho, mas eu gostei de você.
sobretudo fumando (o que é ainda mais estranho!)
27 de fevereiro
olhar não arranca pedaço, né? e faz até bem! quem sabe porque, mesmo assim, mesmo depois de tudo, tudo que eu quero é que ela seja para mim o que ninguém mais foi.
01 de março
eu queria dividir a minha vida com você, dividir tudo que fosse possível com você, aliás, não apenas dividir, mas trocar, compartilhar, te ajudar a ser alguém, te invadir de coisas boas, criar um laço de afeto para sermos livres, te livrar do mal intencionado, te olhar nos olhos sempre, fazer possível.
01 de março
:D
02 de março
e de repente, não mais que de repente, a minha vida mudou…
13 de março
me pegue pela mão, puxe meus cabelos, não fique indiferente à mim; não fique indiferente e fique comigo, eu te levarei para um lugar que de hoje em diante passa a ser só nosso, nosso canto de paz e fúria, por favor fique, deite comigo na grama e veja no céu os belos desenhos que as nuvens fazem para você, para serem dignas da sua beleza, do seu sorriso quase bobo, sempre lindo. me beije, me proteja da violenta ausência que é tudo sem você. vem, vambora, eu quero viver, quero viver uma vida inteira e plena com você, você me faz tão bem, vamos rodar, vamos rodopiar, vamos nos despreocupar, vamos brincar, rodopiando, ficar na contínua ebriedade dos nossos laços, na confusa horizontalidade de nossa relação, nossa complexidade é tão simples de ser e ser com o outro. vem bordada, traga flores e conchas, em um canto me diga como se sente, quais são tuas tormentas, que eu te leio um poema, nós nos entenderemos, seu cheiro me conforta, seus braços são pousadas, como os meus são para você. olhe no céu, olha quanta vida tem o sol, quanta vontade de queimar, seu rosto fica tão receptivo quando o sol te toca, tem tanta vida em cada pequena coisa, tem tanta coisa em cada pequena vida.
22 de março
nós somos tantas coisas e também somos tantas coisas um pro outro que mais parece que falta tempo pra nós ficarmos juntos, bem relaxados, deitado em uma espreguiçadeira olhando para as nuvens, ou reclamando do calor, ou procurando marquinha de nascença na pele do outro, bem a toa mesmo. é, falta tempo, e cada tempo passado junto parece fazer com que nós nos descubramos mais e mais. nos descobrimos, nos desvendamos e invariavelmente nos expandimos mais um pouco, de modo que o tempo junto só aumenta ainda mais o que se há para ser e ser para o outro. todo o tempo junto que recuperamos só faz aumentar ainda mais a nossa falta de tempo, a nossa precariedade e vontade de insistir, aí nos aproximamos, enquanto vamos criando pontos cada vez mais distantes um do outro, quase como uma trilha de migalhas, ou estradinha de tijolos dourados. à procura e em criação. somos tantas coisas, tantas coisas a nos dizer, tanta coisa a nos fazer, somos tanto, que não importa o que fizermos, fazendo só vai ser uma coisa, uma dentre tantas as possibilidades que por capricho se cristalizou, deixando em suspensão muito do que havia para ser. somos, seremos, seríamos, sejamos, fomos alguma coisa, enquanto tantas outras ficaram ali, na margem, esperando a sua oportunidade de também ser. nós somos tanto que não cabe no tão pouco, nem no muito, já que nem sabemos bem o que somos, assim conceito fechado, então, não nos sobra mais do que aceitar essa pluralidade e essa limitação toda e nos lançarmos, nus, a situação, como quem olha pra um caleidoscópio, que a cada momento estratifica e eterniza uma das infinitas facetas, nos deslumbrarmos, nos devorarmos e esperarmos nossa próxima chance de lançar mais umas olhadelas nisso tudo.
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* Excerto do meu conto de mesmo nome publicado no livro “No arco-íris do esquecimento” (2012, Ed. Multifoco). Que pode ser adquirido em: Livro: http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=966&idProduto=995
João Henrique Balbinot, paranaense de interior, gosta de viver rodeado de músicas, palavras e pessoas. Quase sempre.
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