Para ouvir lendo (ou apenas ouvir) | Lucky (parte 06 - final)
A intensa vontade de não ser miserável: recortes de um caderno de memórias*
31 de dezembro
os momentos que fomos lado a lado, não foram, de fato, momentos, cada instante estava contaminado, meus movimentos foram premeditados, aquelas cenas passaram déjà-voando incessantemente sobre mim, subvivi. eu antevi toda a nossa história antes mesmo dela começar. repeti cada possibilidade à exaustão na minha cabeça, porque, veja, eu fui muito mais com sua ausência (principalmente inexistência, antes e também depois), do que com você. vivenciei a falta e a falta que a falta faz. sobrevivenciei. vivenci. pode causar espanto, mas não é nada de excepcional, não existimos, não conseguimos existir, amontoados malacabados de barro por se moldar nos despedaçamos ao sol. poderíamos, ao menos, termos nos fundido, mas a chuva esqueceu de cair. inútil sentir culpa ou ódio. cabeça vazia é oficina do diabo e a vida é uma coisa que não deixa de acontecer, esse palco mental abstrato foi ocupado e não havia nada que pudéssemos fazer, apenas humanos, falhamos, e falhamos, e um espaço vazio como esse é logo ocupado por qualquer representação que pede posse, uso capião e essas coisas. cada um de nós está em seu direito (em seu silêncio?), e em seu dever devir, também. nem essa confissão é genuína, eu já falei essas incoerências mil vezes antes, aos berros, aos sussuros, por escrito, assinado ou anonimamente. todos cometemos nossos pequenos crimes, dormimos sobre nossas mentiras brancas que certamente foram muito mais que nove. cada um recorre as armas que possui, o sol vai ardendo, a chuva trata de se esquecer, eu de fantasiar e ela de fugir. hoje eu posso, quero e consigo dizer: tudo bem. limitado e limitante, ela não tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que ainda não vi, ela o alimenta. sem ver sinto pesar, antevendo sinto asco, especialmente por saber que nunca verei, não se depender dela me mostrar. limites. trâmites. mais uma vez no penhasco, gritando eco e acenando pro invisível, esperando que a terra ceda. eu não conseguia suportá-la me agonizando, agora agonizo suportando, parece jogo de baralho, ditado por regras que nos impedem de desistir, porque quem lança a bandeira branca perde. enquanto barro barroco esturricamos no sol, rachamos, desmoronamos em cima do desmoronar do penhasco até que, caindo, nos confundimos enquanto poeira.
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* Excerto do meu conto de mesmo nome publicado no livro “No arco-íris do esquecimento” (2012, Ed. Multifoco). Que pode ser adquirido em:
Livro: http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=966&idProduto=995
João Henrique Balbinot, paranaense de interior, gosta de viver rodeado de músicas, palavras e pessoas. Quase sempre.
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