Review In Rainbows cinco anos - Radiohead, agora a cores e mais belos que nunca
Por: José Miguel Lopes
Não foi assim há tanto tempo que In Rainbows, sétimo álbum dos britânicos Radiohead, chegou a nós. Apesar disso, já ninguém lhe poderá negar o papel na História da indústria musical, pela forma como o disco foi lançado. Mas ficará também na outra História por nos mostrar que há bandas que, mesmo com uma certa idade, sabem sempre que rumo seguir.
A premissa que deixou tanta gente de boca aberta? Se bem se lembram, cada consumidor poderia pagar pela versão digital do álbum (até ao começo de 2008, a única disponível em muitos territórios) a quantia que quisesse. Zero euros era opção válida. Uma estratégia arrojada que serviu de catalisador para discutir um assunto que já há muito merecia atenção. E não é invulgar associar-se o disco In Rainbows a esse ato de sagacidade comercial. Mas importa, claro, que a atenção por detrás da forma como este foi comercializado não ofusque o seu conteúdo. Noutras palavras: In Rainbows é clássico – não por ter sido uma das mais eloquentes vozes a anunciar a morte da antiga forma de se fazer negócio na música – mas pelas dez canções nele contidas.
Esta é a altura em que os apreciadores mais fervorosos de OK Computer se levantarão, afirmando que o sétimo disco dificilmente terá sido tão marcante como o álbum que veio ao mundo em 1997 e que influenciou, para todo o sempre, uma geração de bandas a começar nos Muse e Coldplay e a acabar nos Arcade Fire. Os principais apologistas de Kid A, por seu lado, insistirão que apesar do impacto aquando do surgimento de In Rainbows, esse disco não pode competir com o choque térmico que foi a chegada, em 2000, de um álbum ainda mais frio, alienante e experimental do que a já então consagrada obra-prima. Entretanto, os que advogam acima de tudo The Bends – do já longínquo ano de 1995 – dirão que a banda nunca foi tão firme, direta e emotiva como naqueles tempos.
Se todavia os procurarmos, não faltam argumentos que atribuam também a In Rainbowso estatuto de disco obrigatório. Se é facto que não possui a coesão conceptual de outros trabalhos, verdade é que nada entre as suas dez faixas soa fora do lugar ou excessivo. Depois, pesa o facto de todas as suas canções terem sido pintadas com belas melodias – algumas mais bonitas inclusive das que, até aqui, se puderam ouvir num álbum deRadiohead.
Mas os argumentos não ficam por aqui: ao contrário dos discos mais experimentais, – que nos tinham deixado, em certos momentos, com a ideia de que o grupo não seria já muito mais do que uma mera extensão de Thom Yorke – em In Rainbows sentimos osRadiohead a serem, realmente, uma banda no estrito sentido da palavra.
E que outra coisa se poderia dizer de um álbum onde cada um dos membros individuais assume papéis em tudo capazes de ombrear com os seus outros pontos altos? A prestação do vocalista Thom Yorke, por exemplo, impressiona pela beleza com que o seu falsete (talvez até melhor do que antes) nos chega aos ouvidos. "Reckoner", "Faust Arp" ou "Nude" figuram entre os melhores momentos na carreira do vocalista. Jonny Greenwood, quando não nos arrepia com os seus teclados, cativa-nos pela elegância com que a sua guitarra liberta arpejos.
Essas notas, não raras vezes, acabam intercaladas com as de Ed O’Brien que – por seu lado – se mostra o verdadeiro senhor das ambiências quando não está, também ele, a trabalhar nas grandes melodias do disco. Já Colin Greenwood, o baixista, atribui sensualidade, carisma e profundidade às canções com uma regularidade que já não se sentia desde 1997, enquanto o baterista Phil Selway permanece o mesmo de sempre: desconcertante em "15 Step", competentemente emotivo nas "Weird Fishes/Arpeggi" e "All I Need", quando não se demonstra suave que nem um cisne, como em "Nude".
Depois temos, claro, as canções. Tal como no anterior Hail to the Thief, não há um estilo nem estado de espírito singular que sobrevoe todo o álbum. Mas, ao contrário daquele disco lançado em 2003, em In Rainbows a diversidade resulta mais benéfica e apaixonante do que desequilibrada. Assim, entre a explosão pop de "15 Step" (batidas saltitantes, guitarras meigas, ritmos traiçoeiros e uma aparente leveza no som que nos deixa, a princípio, desnorteados) e a distorção abafada de "Bodysnatchers" (onde os riffs de guitarra chovem pelos ouvidos a ponto de ser recomendável baixar-se um pouco o volume) vai uma oscilação de géneros digna de uma salada russa. Contudo, ela resulta. E assim será por todo o disco.
A joia da coroa será, deste modo, assunto suscetível para acesos debates. Mas, entre tudo o que por aqui se ouve, será difícil permanecer-se incólume perante a melancólica teia de arpejos que é "Weird Fishes/Arpeggi", uma canção onde o quantitativo de belo será tudo menos excessivo. Ou talvez o cume se fique pelo erotismo subtil de "Nude" que, poupada nos arranjos, nos demonstra uns Radiohead mais vivos, quentes e humanos do que estávamos habituados a ouvir.
Pareceria, contudo, crime não se mencionar a sinceridade emotiva de "All I Need" – talvez uma das canções mais diretas do grupo em muito tempo – onde a distorção do baixo e as ambiências obscuras vão dando lugar a um clímax como há muito não se ouvia num disco de Radiohead. E, já que falamos nisso, também não se poderia ignorar a beleza acutilante de "Reckoner" – epicentro de In Rainbows – que seduz seja pelo mistério da letra, a formosura das guitarras, o gemido de Yorke ou pela sumptuosidade das orquestrações.
Um pouco abaixo da fasquia ficará, entretanto, o momento acústico de "Faust Arp" que – não obstante a sua aparente complexidade e a beleza com que as guitarras acústicas, os instrumentos de cordas e a voz de Yorke se misturam – não deixa de soar como uma mera ponte ou interlúdio entre as mais emocionais "All I Need" e "Reckoner". A outra canção que ficará um pouco aquém é a despedida com "Videotape" que, apesar da melancolia em nós invocada ou da hipnótica passagem de piano, não consegue ombrear em dramaticidade ou encanto com outras canções de ADN semelhante, desde "Pyramid Song" a "Sail to the Moon". Mas claro que, mesmo abaixo desses outros momentos, ambas as canções merecerão o seu mérito. De resto, tanto a pendular "House of Cards" como a mais orelhuda "Jigsaw Falling into Place" não ficarão por cá esquecidas.
Posto isto, não será por acaso que se repetiu tantas vezes, ao longo deste texto, a palavra 'belo' ou seus derivados. É que, se OK Computer ficou para a História pelo modo épico com que descreveu e musicou estes tempos tão modernos e se Kid A foi clássico pelo aventureirismo e pela frieza da abordagem eletrónica que a banda assumiu, resta dizer que também In Rainbows tem tudo para singrar no imaginário coletivo, quanto mais não seja pela beleza das canções nele contidas.
MATÉRIA ORIGINAL>> Comum














